Crônicas de Maria Rita Kehl

Programa com crônicas de Maria Rita Kehl, psicanalista e jornalista publicadas na Revista Carta Capital

Multidões Virtuais

Na era das redes sociais, onde todos falam e poucos escutam, Maria Rita Kehl mergulha nas raízes da servidão voluntária e do comportamento das massas. A partir de La Boétie e Freud, ela reflete sobre a tentação do anonimato, o conforto perigoso do pertencimento e a facilidade com que o indivíduo abdica da própria responsabilidade ao se esconder atrás da multidão.

Entre a psicanálise e a crítica social, Maria Rita nos provoca a pensar sobre os novos “tiranos” — não mais coroados, mas viralizados. Uma reflexão afiada e necessária sobre o poder, o pertencimento e o preço de “descer alguns degraus na escala da civilização” em nome da aceitação digital.

Lu La

Maria Rita Kehl revisita o início da trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva — o jovem metalúrgico de voz rouca que surgia nos anos 1970 e se tornaria uma das figuras mais marcantes da história do Brasil. Numa narrativa pessoal e afetiva, ela relembra o encontro com o então líder sindical e reflete sobre a força do trabalho, a consciência de classe e o poder transformador da experiência vivida.

Entre lembranças e análises, Maria Rita costura Marx, sindicalismo e humanidade, mostrando como a compreensão intuitiva de Lula sobre o mundo do trabalho revelava um olhar profundo sobre as desigualdades. Uma crônica que fala menos de política e mais de destino — o de um homem e o de um país.

Idéias fora de Lugar
Neste episódio, Maria Rita Kehl leva o ouvinte a uma reflexão profunda sobre dois grandes mal-entendidos que atravessam a história brasileira. A partir de uma frase de Baudelaire, ela revisita o conceito do “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda, desmontando a ideia de cordialidade como gentileza e revelando seu lado perverso: a exploração disfarçada de favor.

Ao mesmo tempo, Maria Rita dialoga com Hannah Arendt e o conceito da “banalidade do mal”, fazendo um paralelo direto com o Brasil recente, onde a violência, a desigualdade e a crueldade passaram a ser naturalizadas. Um episódio denso, necessário e atual, que convida à escuta atenta e ao pensamento crítico, aqui, na Rádio Madalena.

Descaso Homicida

Maria Rita Kehl traz uma reflexão profunda sobre o descaso homicida vivido pelos povos indígenas durante a ditadura militar e o sofrimento que persiste até os dias atuais. A partir de sua experiência na Comissão Nacional da Verdade, ela compartilha a história de como os povos indígenas, como os Yanomami, foram sistematicamente negligenciados, expostos a doenças fatais, e enfrentaram a destruição de suas terras por projetos de “desenvolvimento” e garimpo ilegal. O silêncio e a indiferença do regime militar e a continuidade dessa falta de cuidado por parte de governos recentes são temas que Maria Rita aborda com precisão e urgência.

O episódio também traz depoimentos marcantes, como o de Davi Yanomami, que descreve o impacto devastador da invasão de suas terras e a destruição de seu modo de vida. A crônica de Maria Rita Kehl nos leva a refletir sobre a responsabilidade do Estado e a luta incansável dos povos originários para preservar suas terras, sua cultura e sua vida. Um chamado à conscientização e ao respeito pelos direitos dos povos indígenas, aqui, na Rádio Madalena.

Inimigo Interno

A violência policial no Brasil não é um desvio de conduta: é um método. Nesta crônica, Maria Rita Kehl parte das recomendações da Comissão Nacional da Verdade para encarar uma pergunta incômoda e urgente — por que nossas polícias são militares?

Ao tratar a população como inimiga, o Estado naturaliza execuções, legitima o racismo estrutural e transforma a exceção em regra. Entre autos de resistência, chacinas nas periferias e a banalização da morte, o que se revela é um país onde proteger virou sinônimo de eliminar.

Marcas da Maldade

A partir da reflexão clássica de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal, Maria Rita Kehl propõe uma leitura dura e necessária do Brasil recente. Nesta crônica, ela diferencia a obediência cega que sustenta a violência institucional daquilo que chama de banalização da maldade — quando o ataque à dignidade do outro deixa de ser exceção e vira espetáculo.

Ao revisitar falas, gestos e políticas do período Bolsonaro, o texto conecta o incentivo à violência, a quebra de tabus civilizatórios e o avanço de crimes brutais no cotidiano, das escolas às redes sociais. Um retrato inquietante de um país que normalizou o intolerável — e que agora precisa reaprender a se pacificar.

A história dos Vencidos

Maria Rita Kehl parte de uma cena cotidiana na Avenida Paulista para refletir sobre a história dos que desaparecem sem deixar rastros. O sumiço de um morador de rua, que vivia com seus cães numa barraca na calçada, se transforma num retrato sensível e duro da invisibilidade social, do preconceito e da violência institucional praticada contra quem já não tem quase nada.

Ao ampliar o olhar, Maria Rita conecta essa experiência pessoal à herança mal resolvida da abolição da escravidão no Brasil, mostrando como a exclusão de ontem continua moldando as desigualdades de hoje. Uma crônica potente sobre memória, abandono e dignidade, que convida o ouvinte a enxergar quem costuma ser empurrado para fora da paisagem urbana.

A massificação da Mentira

Neste episódio, Maria Rita Kehl analisa como a mentira deixou de ser um desvio individual para se tornar um fenômeno de massa. A partir da tragédia climática no Rio Grande do Sul, ela reflete sobre a crueldade das fake news espalhadas em meio ao sofrimento real, mostrando como a desinformação amplia a dor das vítimas e corrói qualquer possibilidade de empatia.

Ao longo da crônica, Maria Rita conecta a fofoca tradicional à lógica perversa das redes sociais, passando pelo bolsonarismo, pela pandemia e pelo uso político da mentira como instrumento de destruição do laço social. Um episódio forte e necessário sobre ressentimento, covardia e os dispositivos que transformam a mentira em arma coletiva. Aqui, na Rádio Madalena.

Direito das Empregadas Domésticas

A partir de uma tragédia real que chocou o país, Maria Rita Kehl constrói uma reflexão dura e necessária sobre o lugar histórico das empregadas domésticas no Brasil. A morte de uma criança, deixada sozinha no apartamento da patroa, escancara uma herança de desigualdade, negligência e cegueira de classe que atravessa gerações. A crônica mergulha na naturalização da exploração, na culpa injustamente carregada por quem sempre esteve em posição vulnerável e na continuidade simbólica de uma lógica quase escravocrata.

Ao relembrar sua própria infância e acompanhar a conquista de direitos com a PEC das Domésticas, Maria Rita expõe a resistência da elite brasileira à ideia básica de justiça trabalhista. Com ironia afiada, ela desmonta argumentos “civilizados” que tentam manter privilégios às custas do trabalho alheio — como o direito sagrado de tomar chá antes de dormir. Um texto potente, crítico e atual, que transforma indignação em pensamento e memória em denúncia.

Medo e Violência

O medo e a violência se alimentam mutuamente — e, no Brasil recente, essa engrenagem ganhou força sob o bolsonarismo. Maria Rita Kehl analisa como uma parcela da sociedade, especialmente entre classes médias e altas, passou a reagir de forma agressiva mesmo sem ameaça concreta, estimulada pelo discurso armamentista, pelo culto à força e pela legitimação simbólica da brutalidade.

Ao revisitar a ditadura militar, a anistia mal resolvida e sua experiência na Comissão Nacional da Verdade, a autora expõe como o país nunca elaborou seu passado autoritário — e como esse recalque histórico abriu espaço para o elogio à tortura, o impeachment de Dilma Rousseff e a ascensão de um presidente que flertou abertamente com a barbárie. Um texto duro, necessário, e um alerta sobre o preço de um país que teme encarar a própria história.

Recalcados

Partindo de memórias pessoais e atravessando gerações, a autora revisita o assédio antes mesmo de ele ter nome. Num tempo em que homens inconvenientes eram chamados de “recalcados”, o machismo já operava com a mesma violência de sempre, apenas naturalizado pelo silêncio e pela culpa jogada nas costas das mulheres.

O texto recusa a confusão conveniente entre desejo e abuso, flerte e coerção. Relata estratégias de sobrevivência feminina aprendidas cedo — inclusive com uma avó nascida em 1901 — e expõe como o constrangimento sempre foi imposto à vítima, nunca ao agressor.

Ao abordar um caso recente envolvendo poder, hierarquia e denúncia, a crônica desmonta o paternalismo travestido de prudência e lembra o óbvio que ainda precisa ser dito: posição social, cargo público ou cor da pele não absolvem ninguém de ser cafajeste — nem de responder por abuso.

Um texto que conecta história, corpo, política e memória para afirmar algo simples e urgente: respeito não é excesso, é o mínimo. E começa, pasme, com um “posso falar com você?”.

Aquarela sem Cor

Neste episódio, Maria Rita Kehl analisa o avanço da devastação ambiental no Brasil a partir das decisões recentes do Congresso Nacional, que fragilizam o licenciamento ambiental e favorecem os setores mais predatórios do agronegócio. Às vésperas de uma conferência internacional sobre o clima, ela questiona o cinismo e a indiferença diante da crise climática e dos impactos diretos dessas escolhas sobre florestas, rios e populações vulneráveis.

A crônica também destaca o papel fundamental dos povos indígenas e da agricultura familiar na preservação dos biomas brasileiros, contrapondo-os a um modelo de exploração que transforma a terra em pasto improdutivo e ameaça o equilíbrio ambiental do país. Com imagens fortes e emocionais, Maria Rita alerta para um futuro de terra calcinada e vida ameaçada, convidando o ouvinte a refletir sobre o preço da destruição. Aqui, na Rádio Madalena.

Cruel Hipocrisia

Maria Rita Kehl discute a crueldade escondida por trás do moralismo que cerca o aborto, denunciando a hipocrisia de discursos que dizem defender a vida enquanto ampliam o sofrimento de mulheres e meninas. A partir de referências como Jacques Lacan e de casos emblemáticos do Brasil recente, ela questiona o uso da religião e da culpa como instrumentos de punição contra quem já vive uma situação extrema.

Ao longo da crônica, Maria Rita desloca o debate do aborto para o lugar que raramente ocupa: a realidade concreta das gestantes, seus conflitos, dores e escolhas difíceis. Um episódio corajoso e necessário, que desmonta falsas virtudes, expõe desigualdades de gênero e convida à empatia, ao pensamento crítico e à responsabilidade ética. Aqui, na Rádio Madalena.

Fetiche e Barbarie

Em “Fetiche e barbárie”, Maria Rita Kehl parte da célebre frase de Walter Benjamin — “nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie” — para examinar a lógica do consumo nas sociedades capitalistas. Ao retomar o conceito marxista de fetichismo da mercadoria, ela explica como os objetos de consumo carregam, de forma invisível, uma parcela da vida do trabalhador: tempo, energia e existência que não lhe são devolvidos integralmente sob a forma de salário. Esse “pedaço de morte”, como a autora define, é ocultado pelo brilho da mercadoria e constitui a base da alienação e do lucro no capitalismo.

A reflexão avança para o presente, onde o mercado passa a produzir também mercadorias simbólicas e digitais, intensificando novas formas de barbárie. O anonimato nas redes sociais, aliado ao imperativo do gozo — “se pode, deve” —, cria um ambiente propício à violência virtual, ao linchamento simbólico e até à morte. Nesse cenário, pessoas deixam de ser sujeitos e passam a se “vender” como mercadorias, tornando-se descartáveis à medida que o sistema as considera obsoletas. O texto termina com uma pergunta incômoda e necessária: o que acontecerá com o próprio capitalismo quando o trabalho humano já não for mais necessário — e quem restará para consumir suas mercadorias?

Ponto de Sublimação

A partir de Freud, Maria Rita Kehl propõe uma reflexão instigante sobre a sublimação — essa capacidade humana de transformar desejos proibidos, violentos ou inalcançáveis em linguagem, cultura e criação. Ao revisitar conceitos como o complexo de Édipo, as pulsões de vida e de morte e o papel da palavra na contenção da violência, o texto mostra como falar, escrever, cantar e criar são formas fundamentais de civilização.

Entre a clínica, a cultura e a história, a autora defende que a renúncia ao prazer imediato não empobrece a vida, mas a enriquece. É justamente da impossibilidade — e não da satisfação plena — que nascem a arte, a música, a literatura e até os primeiros registros da humanidade, como as pinturas rupestres de Lascaux. Um ensaio sensível e potente sobre por que sublimar é, no fundo, aprender a viver em sociedade.

Psicose e Ambiguidade

Partindo do conceito de ambiguidade formulado por Josef Bleger, o texto percorre a delicada fronteira entre psicose, afeto e repressão. A autora articula teoria e experiência pessoal para mostrar como mensagens contraditórias, vindas justamente de quem deveria oferecer segurança, podem desorganizar profundamente a constituição psíquica de uma criança.

Ao longo do ensaio, surgem figuras fundamentais da história da saúde mental no Brasil, como Nise da Silveira, cuja recusa da violência e aposta na arte, nos vínculos e no cuidado revolucionaram o tratamento da psicose. Cachorros, pincéis e oficinas substituem grades, choques e lobotomias, revelando que o respeito pode ser mais terapêutico que qualquer contenção.

O texto desmonta preconceitos persistentes ao lembrar que psicóticos, tratados com dignidade, não representam ameaça alguma. O perigo real vem de outro lugar: da psicopatia socialmente aceita, do sadismo travestido de poder e da indiferença diante da dor alheia. Um ensaio lúcido, humano e politicamente afiado sobre loucura, cuidado e civilização.

Terra sem Lei

Em “Terra sem lei”, Maria Rita Kehl lança um olhar afiado sobre o uso das redes sociais e o modo como plataformas criadas para aproximar pessoas acabaram se transformando em territórios de hostilidade, solidão e linchamentos virtuais. A partir de sua própria experiência — especialmente com o WhatsApp — ela reflete sobre o caráter viciante desses dispositivos, a passividade que produzem e o vazio que se instala quando o tempo livre é consumido por informações irrelevantes, falsas polêmicas e uma sucessão infinita de estímulos.

Com apoio das ideias de Jacques Lacan e dados recentes sobre o uso excessivo das redes no Brasil, a autora mostra como esses dispositivos não são neutros: acionam violência, alimentam o ódio e fragilizam o laço social. Em contraponto a esse cenário adoecedor, Maria Rita recupera a simplicidade poderosa do Profeta Gentileza, lembrando que, diante de uma terra sem lei digital, talvez o gesto mais revolucionário ainda seja o mais antigo de todos: gentileza gera gentileza.

Tratamento Humanizado

Tratamento humanizado é o tema desta crônica de Maria Rita Kehl, que resgata a revolução silenciosa promovida pela psiquiatra Nise da Silveira, uma pioneira que trocou a violência das lobotomias pela escuta, pela arte e pelo afeto. Em vez de “consertar” pessoas com métodos brutais, Nise apostou na dignidade, na criatividade e na possibilidade real de cuidado para quem sofria de psicose.

A partir de memórias pessoais e experiências vividas dentro de um hospital psiquiátrico, Maria Rita nos conduz por uma reflexão contundente sobre a reforma psiquiátrica, o tratamento dado aos chamados “loucos” e o quanto a humanidade — ou a falta dela — define quem somos como sociedade. Um texto necessário, sensível e atual, que lembra: respeito também é terapia.

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